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Análise Ipec-RJ: Freixo reduz rejeição entre evangélicos, Lula dispara entre mais pobres do Rio

A pesquisa Ipec foi vista com algum temor por apoiadores de Lula e Freixo. Mas ela não é ruim para nenhum dos dois. Freixo perdeu alguns pontos no primeiro turno, mas isso me parece um soluço estatístico da pesquisa, e não uma tendência. Ambos são favoritos.

Lula no Rio, com Freixo, Ceciliano e Alckmin.
Créditos: Ricardo Stuckert
RevistaFórum
Por Miguel do Rosario

É preciso muito cuidado na hora de se analisar uma pesquisa como essa da Ipec no Rio de Janeiro, para não se deixar distrair por aquilo que não é o mais relevante nesse momento.

No caso da disputa para o governo do estado, por exemplo, a comparação com a sondagem anterior, de maio, embora importante para se perceber tendências, pode confundir, porque o momento político mudou muito.

A grande mudança ocorrida desde maio foi o desaparecimento da terceira via. A bem da verdade, ela já era virtualmente inexistente em maio. O fator tempo, no entanto, é crucial em política. Um baixo desempenho a 150 dias das eleições é uma coisa. Manter o mau desempenho a 70 dias do pleito, às vésperas do prazo final para definição das chapas majoritárias, é infinitamente mais grave.

Por exemplo, no início de maio, alguns apoiadores do chefe do Executivo, como o deputado Arthur Lira, presidente da Câmara, fez declarações muito confiantes de que Bolsonaro ultrapassaria Lula ainda naquele mês ou em junho.

Pesquisas são essenciais para se entender o momento político, mas nunca devemos esquecer que são apenas pesquisas. Podem errar. A única pesquisa que realmente conta é o voto.

Numa democracia de massas nos dias de hoje, no entanto, com a importância que a informação conquistou em nossas vidas cotidianas, pesquisas de intenções assumem uma importância gigantesca, e não apenas pela previsão que fazem sobre quem teria mais chances de ganhar as eleições, mas sobretudo para nos ajudar a compreender um pouco mais a conjuntura.

Quando Lira fez a previsão de que Bolsonaro ultrapassaria Lula em maio ou em junho, muita gente engoliu em seco, porque, apesar de nenhuma pesquisa sugerir uma tendência assim, não seria impossível uma recuperação política de Bolsonaro. Afinal, as mesmas pessoas que votaram em Bolsonaro em 2018 continuam por aí, votando. Não mudamos de povo.

Além do mais, era previsível que Bolsonaro, em algum momento, colocasse sua máquina política em funcionamento. E ele o fez. Quando Lira fez sua previsão em maio, ele já devia estar pensando nos bilhões de reais que a base bolsonarista vem conseguindo arrancar do governo, para movimentar as engrenagens eleitorais governistas. Muita coisa, inclusive, precisava ser iniciada antes do início da campanha propriamente dita, quando as regras eleitorais reduzem a desenvoltura da malandragem política. Além disso, a partir de junho, os recursos eleitorais começam a cair na conta dos principais partidos, incluindo os de oposição, diminuindo a assimetria de armas das forças em disputa.

Passemos logo à análise da pesquisa Ipec no Rio de Janeiro. Segundo informado ao TSE, ela foi paga pela Associação de Indústrias do Rio de Janeiro e custou R$ 88 mil. Foram realizadas 1.008 pesquisas presenciais. Sempre bom lembrar também que o Ipec é conduzido pela mesma equipe que produzia o antigo Ibope. A responsável por essa pesquisa, por exemplo, é Márcia Cavallari Nunes, que também assinava as pesquisas Ibope.

A pesquisa traz cenários para as eleições em três níveis: governo do Rio, Senado e presidência da república. Nesse post, falaremos apenas da disputa para governo e presidência. Vamos deixar a análise sobre a disputa para o Senado para um outro momento.

O relatório estratificado dessa pesquisa pode ser baixado aqui. A pesquisa anterior, de maio, pode ser baixada aqui.

Análise

Pois bem, maio passou, veio junho, estamos já ao final de julho, e Bolsonaro não ultrapassou Lula em nenhuma pesquisa. O presidente conseguiu ganhar pontos em algumas. Em outras, porém, caiu. E Lula não tem menos de 40% em nenhuma pesquisa.

No caso da Ipec entre eleitores do estado do Rio, Lula tem 35% na espontânea, contra 30% de Bolsonaro. Houve oscilação negativa de 2 pontos do petista (tinha 37% em maio), ao passo que Bolsonaro avançou 3 pontos. Apesar da vantagem de Lula ter saído de 10 para 5 pontos, a mudança não é tão importante.

Olhando para os dados segmentados, nota-se que esse pequeno declínio de Lula se deu exclusivamente pela perda de votos junto a setores mais abastados da classe média, com renda familiar acima de 5 salários. É o eleitorado tradicional de Bolsonaro ou da direita. Nesse extrato, Lula caiu de 40% em maio para 27% em julho, ao passo que Bolsonaro subiu de 33% para 41%.

Entretanto, entre eleitores mais pobres, com renda familiar até 1 salário, que correspondem a quase o dobro, em quantidade, daqueles que ganham mais de 5 salários, Lula avançou de maneira espetacular, passando de 37% em maio para 45% em julho. Nesse mesmo extrato, de eleitores na base da pirâmide, Bolsonaro caiu de 20% para 16%. Estamos falando de votos espontâneos! Com isso, a vantagem de Lula entre mais pobres, que era de 17 pontos em maio, subiu para quase 30 pontos!

Isso é uma tendência! É um sinal vigoroso de que a imagem de Lula está se enraizando com muita força no imaginário do eleitorado pobre fluminense, que perfazem a maioria esmagadora da população no estado, porque pobres são maioria em todo o país!

Outros candidatos, por sua vez, estão completamente excluídos do imaginário do fluminense mais pobre.

Ciro Gomes, por exemplo, tinha 2% de votação espontânea em maio, e agora tem os mesmos 2%.

Interessante notar, neste ponto, que alguns militantes ciristas tem veiculado uma análise obviamente falsa, exagerada, de que a candidatura de Marcelo Freixo teria “acabado”. Bem, Freixo tinha 4% na espontânea de maio e agora tem 6%. Ou seja, em votos espontâneos, Freixo tem três vezes mais eleitores no Rio do que Ciro.

O desempenho de Marcelo Freixo na pesquisa é melhor do que uma análise apressada poderia sugerir. Continuemos olhando para a espontânea.

Claudio Castro tinha 8% na espontânea em maio e agora tem 12%.

Freixo, no entanto, tem alguns trunfos. Ele cresceu nos extratos de renda mais alta, ou seja, naquele mesmo espaço onde, em tese, ele deveria enfrentar mais dificuldade, por serem classes onde Bolsonaro é mais forte. Entre eleitores com renda acima de 5 salários, Freixo cresceu de 8% para 15%.

Seu principal concorrente no campo da oposição a Claudio Castro, o ex-prefeito de Niteroi Rodrigo Neves, experimentou um revés junto a classe média, com sua votação espontânea caindo de 4% em maio para 2% em julho.

Aparentemente, Neves continua bloqueado eleitoralmente, em virtude de seus vínculos políticos e partidários com um candidato como Ciro Gomes, que tem um desempenho muito fraco no Rio de Janeiro.

Mas olhemos agora para a votação estimulada.

Na disputa pela presidência, Lula se mantém numa liderança folgada, com 41%, contra 34% para Bolsonaro e 6% para Ciro Gomes.

Houve uma reacomodação em relação a maio, quando Bolsonaro tinha 31%, Lula 46% e Ciro 4%. A máquina política de Bolsonaro, especialmente suas engrenagens evangélicas, entrou em ação.

Em maio, Bolsonaro tinha 46% entre os evangélicos fluminenses. Agora tem 51%. Bolsonaro também cresceu entre católicos, de 24% para 28%.

Entretanto, mais uma vez se observa a força impressionante de Lula junto às classes mais pobres. Entre eleitores com renda familiar até 1 salário, que representam quase um terço do eleitorado fluminese, o petista cresceu de 49% em maio para 55% em julho!

Interessante notar ainda que a categoria de escolaridade se descola parcialmente da renda, porque temos cada vez mais estudantes universitários de baixa renda.

Entre eleitores com ensino superior, Lula pontua 37%, contra 34% para Bolsonaro.

Na disputa para o governo do estado, acho interessante analisar logo o cenário de segundo turno, no qual Marcelo Freixo mantém um empate com Claudio Castro, 33% X 34%.

A polarização nacional parece ter já começado a influenciar a eleição estadual, porque Freixo ganha de Castro principalmente entre o eleitorado mais pobre. Entre eleitores com renda familiar até 1 salário, Freixo ganha de Castro por 36% a 26%. Já entre eleitores com renda acima de 5 salários, que correspondem a 16% do eleitorado, o governador Claudio Castro vence por 41% X 34%.

Um dado que me parece promissor para Marcelo Freixo é a queda de sua rejeição, especialmente entre evangélicos. No geral, a rejeição de Freixo oscilou um ponto para baixo, de 27% para 26%. Entre evangélicos, caiu de 34% para 31%. Esse número é muito importante para a campanha de Marcelo Freixo, porque um dos argumentos mais frequentes que se costuma usar contra sua candidatura é que ele teria elevada rejeição entre evangélicos. Não é o que essa pesquisa mostra.

Conclusão

A pesquisa Ipec foi vista com algum temor por apoiadores de Lula e Freixo. Mas ela não é ruim para nenhum dos dois. Freixo perdeu alguns pontos no primeiro turno, mas isso me parece um soluço estatístico da pesquisa, e não uma tendência. O deputado, agora no PSB, reduziu sua rejeição no setor que mais poderia lhe trazer problemas, os evangélicos, e cresceu na classe média (na espontânea).

Entretanto o mais importante nessa pesquisa, para Freixo, é o seu desempenho forte no segundo turno, empatando com Claudio Castro. Haverá segundo turno nas eleições para o estado, e tudo indica que, neste momento, a campanha será fortemente nacionalizada. Eleitores de Lula votarão em Freixo, e eleitores de Bolsonaro votarão em Castro. Por isso acredito, com base nessa pesquisa, que Freixo é o favorito para ganhar as eleições no Rio.

No caso de Lula, a pesquisa também traz números muito bons. A previsão de Lira não se materializou sequer no berço político de Bolsonaro, onde ele mantém uma poderosíssima engrenagem, alimentada com dinheiro público, aliança com milícias e acordos pouco republicanos com organizações evangélicas.

Num eventual segundo turno entre Lula e Bolsonaro, o petista vence com folga no Rio de Janeiro, por 47% X 39%. Entre eleitores com renda familiar até 1 salário, Lula tem 61% dos votos totais, contra 25% de Bolsonaro.

Outro segmento onde Lula é muito forte é a juventude, especialmente eleitores com 16 a 24 anos, entre os quais o petista vence Bolsonaro no segundo turno por 57% a 29% dos votos totais.

Ainda no segundo turno, Lula vence entre homens por pequena vantagem, de 44% X 42%, mas abre uma diferença de 13 pontos entre mulheres!

No Rio de Janeiro, terceiro maior colégio eleitoral do país, segundo a pesquisa Ipec, Lula também é favorito para vencer as eleições.

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